Origens Históricas e Mapeamento dos Vetores de Introdução (Anos 1970)
A gênese da introdução do reggae no Maranhão em meados da década de 1970 ocorreu à margem dos circuitos comerciais hegemônicos e das multinacionais do disco. Tratou-se de um processo genuinamente espontâneo de circulação atlântica, apropriação comunitária e territorialização periférica.
Embora o senso comum tenha propagado a versão de que o reggae teria chegado via ondas curtas (AM) do Caribe, investigações de pesquisadores como Otávio Rodrigues (“Doctor Reggae”) e do músico Zé Orlando (Tribo de Jah) esclarecem que as sintonizações de países vizinhos (Colômbia, Venezuela) habituaram o ouvido maranhense a ritmos sincopados como salsa, merengue e calypso. A penetração fática e documentada do roots reggae jamaicano deu-se a partir de três vetores fundamentais:
- O Escambo Marítimo em Cururupu e Porto do Itaqui: Marinheiros caribenhos (Guiana Francesa, Trinidad e Tobago) aportavam na costa maranhense e utilizavam compactos de vinil (as “bolachinhas”) como moeda de troca informal em bares e pensões portuárias. Relatos de radioleiros como Maurício Capela e José de Ribamar Maurício Costa (o “Carne Seca”, discotecando desde 1978) atestam como esses discos raros alimentaram os primeiros colecionadores.
- Rota Comercial Terrestre Belém–São Luís: O comércio itinerante de discos usados articulado por Carlos Santos nas feiras de Belém abasteceu pioneiros ludovicenses, especialmente o DJ Riba Macedo, que introduziu a chamada “música estrangeira lenta” nos clubes periféricos.
- Matriz Étnico-Racial e o Atlântico Negro: A assimilação imediata pela população negra maranhense ancorou-se em raízes diaspóricas comuns (Costa da Mina em São Luís e Império Axante na Jamaica). A polirritmia das matracas e tambores do tambor de crioula (meião, crivador e tambor grande) e o contratempo do bumba-meu-boi dialogavam com precisão com o skank das guitarras e a linha de contrabaixo do roots reggae.
A territorialização inicial consolidou-se em bairros periféricos como Vila Valdania, Alemanha, Caratatiua, João Paulo, Jordoa, Alto de São Benedito e Barreto, em clubes históricos como o Pop Som (na Jordoa, a “Universidade do Reggae”), o Rock Clube e a Toca da Praia, sob a liderança de pioneiros como DJ Riba Macedo (radiola Som Guarani, 1976), Luizão e Aurino.